Dicionário da Moda

consultoria de moda

Os últimos cem anos foram marcados por mudanças radicais na maneira como criamos e usamos nossas roupas. Antes determinada pelas vestimentas usadas na corte e pela alta-costura, a moda contemporânea é ágil e produzida em massa, com pouco tempo ou recursos para acabamentos artesanais. É também enérgica, vibrante e oportunista, mas mesmo as tendências mais novas ou anárquicas tem um lastro na tradição, e a moda se desenvolve de maneira equilibrada entre a contestação e a imitação do passado. Vamos falar aqui sobre o dicionário da moda.

DICIONÁRIO DA MODA: TERMINOLOGIA

A moda moderna – seja alta costura, prêt-à-porter, feita para lojas de rede, seja reciclada – reflete a influência do estilista mesclada com erudição, interesses e propósitos artísticos. Como resultado, o consumidor escolhe entre o que parece ser uma variedade infinita de modelos. Quando cada desfile é visto pela imprensa de moda, uma enxurrada de palavras procura identificar suas fontes e explicar o “gênio criativo” do artista, por isso reuni aqui neste dicionário da moda estas palavras.

dicionário da moda

Percebemos que há uma ligação indestrutível entre a moda e a história social: movimentos culturais de protesto, como beatnik e hippie, demonstram que as roupas têm sido usadas como símbolo e podem se tornar o uniforme que define uma geração. O estilo das melindrosas da década de 1920 exemplifica como a moda está ligada as mudanças sociais que contribuíram para a liberação das mulheres jovens depois da Primeira Guerra Mundial. Roupas também são um espelho de mudanças políticas – a variação dos modismos inspirados na Rússia reflete as experiencias do pais sob diferentes regimes de governo.

Da mesma forma, a moda é um tipo de arte; percebemos uma simbiose entre as manifestações artísticas e o mundo fashion. Vamos ao dicionário da moda?

DICIONÁRIO DA MODA

Os movimentos da moda não se referem apenas aos estilos de roupas usados por seus adeptos, mas refletem influencias como a relação da moda com a cultura contemporânea prevalente, os músicos ou artistas que promovem e usam o look e as circunstancias políticas e econômicas. Com frequência, os nomes desses movimentos são usados para identificar uma década, principalmente depois de 1900, por isso vamos entender cada um deles com este dicionário da moda.

Esses termos também revelam a importância da moda para a sociedade – movimentos já surgiram de contestação política tanto quanto foram influenciados pelo programa estético de artistas e da publicidade ou pelo trabalho de estilistas de alta-costura. Na verdade, podem nascer tanto das camadas mais pobres ou marginalizadas da sociedade quanto de uma elite de vanguarda, mas são os jovens que exercem a maior influência nessa criação de movimentos, cujo estilo e posteriormente adaptado ao consumo de massa.

ART NOUVEAU

Arte decorativa popular, c. 1890-1919, criada em reação aos estilos intencionalmente medievais, a exemplo dos pré-rafaelitas; suas formas gráficas orgânicas, influenciadas pela arte japonesa, são precursoras do Modernismo. Os motivos dominantes eram inspirados em linhas botânicas alongadas, baseadas em elegantes caules, e não nas petadas, assim como o “Leste decadente”. As roupas tinham uma silhueta sinuosa e obliqua respaldada pela linha S ou pelo espartilho eduardiano, substituída por um contorno maior colunar c.1910. Saias longas e estreitas com anquinhas proeminentes e blusas de gola alta com arremates de renda exageravam ainda mais a curva S. A Art Nouveau associa-se a estilistas como Jeanne Paquin, Jacques Doucet e Paul Poiret, cujos ateliês eram frequentados por atrizes famosas e pelas mal faladas amantes dos nobres.

BEATNIK

Modismo antimaterialista e minimalista do fim dos anos 1940 ao início dos 1960 que rejeitava o preppy, certinho e de aparência saudável. Ao contrário, idolatrava a arte não convencional, intelectuais franceses e escritores da geração beat: Willian S. Burroughs, Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Entre os ícones femininos, estavam Jean Seberg, Brigitte Bardot e Audrey Hepburn. O visual beatnik baseava-se em um guarda-roupa monocromático, preto e sem adornos, com corte de cabelo curto, boina, jeans com as barras dobradas, suéter preto de gola alta, olhos muito maquiados, óculos escuros e jaqueta de couro. Inspira o hipster atual.

BELLE EPOQUE

Muitas vezes sinônimo de Art Nouveau, cobre o período da paz europeia (c.1871-1914), quando as mulheres se tornaram mais independentes e a silhueta vitoriana foi rejeitada em favor da figura mais colunar ou da linha S. O conceito de ateliê moderno começou quando o costureiro inglês Charles Frederick Worth estabeleceu sua Maison em Paris e o primeiro desfile foi organizado nos salões de Lucy (“Lucile”), Lady Duff Gordon.

DESCONSTRUCIONISMO

Influenciado pelo filosofo e filólogo francês Jacques Derrida, o movimento procura mostrar o processo de construção da própria roupa, enfatizando a falta de acabamento de maneira bem-humorada e zombando da natureza vaidosa da moda. Costuras e pontos podem ficar aparentes. A ideia que Derrida faz do artista como bricoleur (trabalhador comum) é aplicada à moda com um uso de materiais reciclados e de ferramentas e utensílios casuais: as peças “inacabadas” podem estar desfiadas ou serem feitas de tecidos imperfeitos, com costuras tortas e danificadas. Entre os nomes relevantes, estão Martin Margiela, Cosme dos Garçons, Yohji Yamamoto e Issey Miyake.

ERA ESPACIAL

A exploração espacial por americanos e russos e os avanços de materiais sintéticos, em particular os fabricados pela DuPont, foram a fonte da moda futurista da década de 1960. As silhuetas minimalistas da coleção Space Age (1964), de André Courrèges, o color block e os debruns metálicos traziam uma ideia das roupas usadas por astronautas, e botas de verniz e imensos “óculos de proteção” brancos remetiam a materiais refletores de calor e equipamento das viagens espaciais.

Trajes unissex se destacaram em coleções como a Cosmo Corps, de Pierre Cardin, e Paco Rabanne produziu roupas de metal e plástico, e não a partir de moldes e tecidos. A tendência ainda se beneficiou do trabalho feito por esses estilistas para o cinema, como o figurino de Rabanne para Barbarella (1968).

GÓTICO

O Gótico moderno inspira-se na alfaiataria da época vitoriana. A etiqueta do luto no século XIX preconizava a consternação pela morte do ente querido durante períodos prolongados e o uso de roupas escuras e lúgubres e joias feitas com o cabelo do falecido. O look gótico celebra essa elegância macabra, e muitos adeptos pintam o rosto de branco, em contraste com olhos, lábios e unhas pretos. Entre as roupas, estão casacos de aba comprida, saias volumosas e espartilhos de veludo com debrum de fitas púrpura e escarlate. Podem ser vistas principalmente nas coleções de John Galliano e Christian Lacroix, assim como nos figurinos de Tim Burton para o cinema.

GRUNGE

Aliado ao desconstrucionismo, esse movimento de “não moda” foi inspirado pela cena musical alternativa de Seattle dos anos 1990, liderada por Nirvana e Pearl Jam. Roupas grunge expressavam desinteresse pela sociedade materialista, e as interpretações das passarelas raramente obtiveram sucesso. Em vez dos ideais tradicionais da beleza, a tendência em usar cabelos longos e sujos, barba por fazer, camisas xadrezes produzidas em massa, jaquetas velhas e calcas jeans largas e gastas, com botas Dr. Martens de segunda mão. Essa subcultura obteve mais êxito ao ser traduzida pela indústria da moda heroin chic, exemplificado por Kate Moss no editorial “Under exposure”, publicado na Vogue inglesa em 1993, e pela campanha da Calvin Klein no mesmo ano.

NEOCLASSICO

Inspirado na Grécia Antiga, esse estilo resgata detalhes de padrões artísticos clássicos. Embora usado por Maria Antonieta no Petit Trianon, está mais associado a Franca pós-revolucionaria ao expressar o rompimento do regime com o passado da realeza. No entanto, os vestidos império de musselina, arrematados por fitas e xales de caxemira orientais, se espalharam pela Europa no início do século XIX. As mulheres arrumavam o cabelo em cachos firmes no alto da cabeça, e sapatos baixos prevaleciam dentro de casa. O vestuário masculino adotou tecidos mais sóbrios e detalhes militares inspirados nos exércitos que guerrearam na Europa até a queda de Napoleão, em 1815.

PUNK

Concebido na Sex, loja de Vivienne Westwood e Malcon McLaren, e liderado pelo Sex Pistols, foi um movimento antimoda que desafiou valores burgueses. Sua paleta contestadora, vermelho, preto e xadrez, em choque com o look disco, refletia a economia britânica deteriorada do fim dos anos 1970. A Sex vendia de tartãs incomuns a trajes fetichistas – mas o punk também insistiu em reciclar pecas, assim como itens de cunho político, a exemplo da camisa Anarchy, de Westwood (1976).

A cultura punk e os moicanos tornaram-se emblemas de Londres na década de 1980.

O trabalho de Westwood ganhou as passarelas, em 1981, mas o espirito de protesto se manteve – por exemplo no engajamento em causas como o desarmamento nuclear e, mais recentemente, a conservação do Ártico.

SURREALISMO

A arte e a moda surrealistas pretendiam surpreender, colocando objetos comuns em situações estranhas. Em 1937, o trompe l´oeil de lagosta e talos de salsicha pintado à mão por Salvador Dalí foi transformado por Elsa Schiaparelli, de maneira extraordinária, em um vestido longo de baile. O Surrealismo aliou-se bem ao tricô – os maiôs de Schiaparelli levaram ao absurdo da época a praia, com tops decorados com peixes que pareciam nadar. Em Paris, chapéus e bolsas de Anne Marie of France eram produzidos no formato de itens cotidianos, como o telefone de baquelite. A joalheria imitava insetos, sugerindo que a usuária estivesse coberta de animais rastejantes.

YOUTHQUAKE

As mudanças sociais e culturais ocorridas em Londres nos anos 1960 estão associadas a uma jovem geração de artistas, estilistas e músicos, além do governo trabalhista de Harold Wilson. Nesse período, a homossexualidade e o aborto foram legalizados, a contracultura tornou-se comum, e os britânicos lideravam a música e as artes visuais. De acordo com Diana Vreeland, então editora da Vogue americana, esse novo cenário foi definido por um “furacão jovem” que celebrou a individualidade e o talento como nenhuma outra geração anterior. Entre as figuras proeminentes do movimento, destacam-se os Beatles, Mick Jagger, Twiggy, Jean Srhimpton e Mary Quant, Vidal Sassoon e o fotografo David Bailey.

ALTA-COSTURA

Criada em Paris, no século XIX, com o modelo de negócios pioneiro do couturier britânico Charles Frederick Worth, a alta-costura ressurgiu depois da Segunda Guerra Mundial com Christian Dior e Huber de Givenchy. Suas maisons podiam mostrar duas coleções por ano e tinha ateliês onde as roupas eram costuradas à mão. Em Londres, Hardy Amies e Norman Hartnell forneciam modelos para a “temporada” britânica”. Peças de alta-costura são produzidas a partir de esboços ou tecidos drapeados, com base em um croqui original. São encomendadas por clientes individuais e nunca produzidas em massa pela Maison.

BARROCO

A inspiração vem do excesso formal das cortes absolutistas dos séculos XVII e XVIII, principalmente Versalhes. Caracteriza-se pela alfaiataria das origens históricas em sedas suntuosas ou brocados pesados com detalhes luxuosos. Para outono/inverno 2012/2013, Dolce & Gabbana criou a coleção Baroque Romanticism, que refletiu estilos da Era do Ouro espanhola: capas pretas muito texturizadas, ornadas com bordados dourados rococós com contraste com joias esmaltadas.

Em 1996, a coleção Les Femmes ne Connaissent pas Toute Leur Coquetterie, de Vivienne Westwood, foi inspirada em vestidos reproduzidos nos quadros do pintor Jean-Antoine Watteau e rober à la française, com sedas clássicas que contrastavam com tartãs mais iconoclastas e ombros a mostra.

ÉTNICO

A moda europeia fez experiencias com vestes tradicionais de sociedades “primitivas” e não ocidentais desde o primeiro contato com elas. Naquela época, como agora, a arte do luxe povera – versões derivadas e caras de roupas típicas – indicava o conhecimento global do usuário. Estilistas não ocidentais ou que procuravam misturar tecidos e modelos de diferentes culturas garantem seu lugar entre os nomes de vanguarda. No início do século XX, Paul Poiret adaptou vestidos japoneses, e suas calcas harém entusiasmaram e libertaram as mulheres dos vestidos de noite. Kenzo e Sonia Rykiel continuam a interpretar o design étnico, unindo matérias-primas e tradições globais.

MINIMALISMO

A estética minimalista prevê roupas de corte simples sem estampas e adornos. Em contraste com o suntuoso New Look, os tubinhos e escarpins peregrinos difundidos por Givenchy e Balenciaga no fim dos anos 1950 instituíram um minimalismo bem feminino e foram usados por Audrey Hepburn e Jackie Kennedy.

A era espacial de Pierre Cardin e André Courrèges, na década de 1960, utilizou tecidos novos, e, nos anos 1990, Jil Sander, Ann Demeulemeester, Calvin Klein e Helmut Lang produziram peças sem enfeites, muito bem cortadas, em “tecidos nobres” que sugeriam sua natureza primordial.

A bolsa-sacola da Prada, lisa e feita com fios de náilon, tornou-se um ícone do movimento.

PRÊT-À-PORTER

O termo indica linhas de roupas mais acessíveis, também criadas pelo estilista de uma grife. Surgiu na década de 1940, nos Estados Unidos, e se desenvolveu na França nos anos 1960 e 1970, quando Yves Saint Laurent saiu da Dior para inaugurar sua butique Rive Gauche. Questionando a alta-costura, refletiu uma época em que os clientes não tinham mais tempo para as provas individuais de um modelo, mas ainda queriam peças diferentes e de qualidade, prontas para serem levadas para casa. O esquema foi seguido pelas principais maisons, nas quais a alta-costura permaneceu como chamariz, mas o prêt-à-porter e as linhas de acessórios tornaram-se mais lucrativos.

UNISSEX

Historicamente, robes sem gênero definido existem desde hufu chinês ou o quimono japonês, mas peças unissex também têm sido usadas para marcar mudanças sociais e a igualdade sexual – um exemplo e o monoquíni de Rudi Gernreich 1964). A exploração espacial inspirou Pierre Cardin a produzir macacões brancos de malharia justa para ambos os sexos. Estrelas de Hollywood como Marlene Dietrich e Anjelica Huston aderiram a trajes masculinos hoje, alguns homens famosos são vistos em sarongues e blusas da Céline. Grande parte do vestuário cotidiano pode ser chamada de unissex, de tênis e jeans, de cardigãs largos a blazers mais longos.

 

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