Perfumaria – História do Chanel No 5

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Ainda que possa soar como um sacrilégio, é possível dizer que havia uma era antes do No 5, e outra depois do No 5. Vamos falar hoje sobre a história do Chanel No 5. Evidentemente, não satisfeita em ter revolucionado a história da moda de maneira irreversível com suas criações de alta-costura – manifestos de liberdade, conforto e dinamismo, Coco Chanel também causou reviravolta na indústria de perfumes. Ela precisou apenas de um perfume para garantir que nada fosse como antes e que toas as tendências até aquele momento se tornassem obsoletas. Sua missão era a de destruir convenções e sua religião era desafiar regras. Uma filosofia e uma estética que mesmo uma simples fragrância consegue incorporar.

História do Chanel No 5

Monte Carlo, verão de 1921 é aqui que começa a história do Chanel No 5. A já famosa estilista estava em paris com sua amiga, a pianista Misia Sert, uma das líderes de um dos círculos mais conhecidos de artistas parisienses, e seu marido, José Maria Sert, além do grão-duque Dmitri Pavlovich, da Rússia, primo do czar. Como a maioria das ideias geniais, a de criar um perfume surgiu emu ma conversa casual. A ideia de um estilista famoso criar um perfume não era inteiramente original, Paul Poiret havia tentado dez anos antes, mas os resultados foram decepcionantes. E, de fato, Chanel estava relutante em arriscar-se em um setor com o qual não estava familiarizada. Mas ela realmente apreciava desafios, em especial os difíceis. O que quer dizer que sua abordagem nessa empreitada foi, como se poderia prever, inteiramente original. “ Eu quero oferecer às mulheres um perfume artificial”, declarou. “Sim, quero dizer artificial mesmo, algo criado. Não quero um aroma de rosas ou lírios, qero um perfume que seja uma composição.”

Foi uma ruptura violenta com a tradição. O primeiro perfume de Maison Chanel nem de longe se parecia com as essências usadas na época: concentradas, intensas, por vezes até enjoativas, feitas com fragrâncias florais imediatamente reconhecíveis. Perfumes românticos, monótonos e sem variação não a agradavam. Coco queria uma visão original, não uma cópia. Uma surpresa, não uma certeza. Quem transformou a intuição da estilista em realidade foi o perfumista Ernest Beaux, apresentado à Chanel pelo grão-duque Dmitri. Nascido em Moscou em 1881, de pais franceses, Beaux começou a trabalhar aos 17 anos na A. Rallet & Co., a perfumaria francesa mais famosa da Rússia, que incluía a corte do czar entre seus clientes de maior prestígio.

Coco o encontrou em La Bocca, próximo de Grasse, centro histórico da indústria de perfumes francesa, onde ele havia montado seu laboratório, estudado, elaborado e criado seus inovadores perfumes. Coco fez solicitações bastante precisas: ela queria um perfume que fosse completamente diferente de tudo que existia no mercado, que fosse ao mesmo tempo elegante e luxuoso, opulento e simples, delicado e persistente, feminino mas não muito doce, algo que tivesse um cheiro maravilhoso e remetesse às mulheres. Beaux mal podia esperar para colocar em prática sua revolucionária pesquisa sobre aldeídos, compostos orgânicos de origem sintética que eram extremamente voláteis e capazes de conferir a essências florais um aspecto duradouro, e ao mesmo tempo, leve.

Até aquele momento, a indústria de perfumes havia explorado muito pouco o potencial dos aldeídos, enquanto toda a base de trabalho de Beaux estava neles. Os aldeídos eram a essência da revolução extrema dos perfumes que Mademoiselle Chanel havia começado a planejar. A inspiração hegou ao olfato talentoso de Beaux por meio da lembrança de uma viagem que havia feito durante a Primeira Guerra Mundial: a essência dos lagos e rios dos países do norte, sob o sol do meio-dia. Com um quê de cientista maluco, ele começou a misturar vários componentes em níveis e números muito mais altos do que o comum para a época. Ao final desses experimentos, mostrou a Coco Chanel duas series de amostras identificadas apenas por números, de um a cinco e de vinte a vinte e quatro. O que impressionou Chanel foi a sinfonia articulada das notas heterogêneas, já que nenhuma realmente prevalecia sobre a outra. Uma rica essência floral de nada menos que 80 elementos, transformado em algo ainda mais intense pelo uso dos aldeídos. Era possível sentir o exótico ylang-ylang, a delicada e rosada flor-de-maio, a sublime essência de Grasse. E então era surpreendido pelas essências de sândalo, baunilha e vetiver. As fragrâncias estavam emu ma mistura harmônica, sem predominância de nenhuma delas sobre as outras. Uma concentração de sensualidade, destilada em um âmago eternamente feminino, impossível de ser descrito em palavras. O objetivo havia sido alcançado. Coco pediu um pouco mais de jasmim, a mais nobre e luxuosa das essências, mas estava segura de sua escolha: o primeiro perfume da Chanel seria o No 5.

Certamente, um perfume tão fora do comum não poderia ter um nome comum. Ela rejeitou sugestões melodramáticas e alusões apaixonadas aos perfumes da moda na época. Coco não queria um novo “Le Sang Français”ou “Le Fruit Défendu” francês, não queria um nome lânguido, insuportável, obtusamente romântico. A sua escolha foi pelo nome mais essencial: No 5. Afinal, Não era esse o “nome” da amostra proposta por Beaux? Ela estava contando com o acaso, já que o cinco sempre havia sido o seu número da sorte. Até mesmo o frasco que escolheu para lançar sua fragrância remetia mais a um tubo de ensaio de laboratório, asséptico, do que às criações esculturais exageradamente decoradas, no estilo Lalique, tão usadas por outras perfumarias. O frasco era quadrado com um logotipo sóbrio e austero, um simples retângulo preto e branco, que exceto por pequenas alterações, continua o mesmo até hoje. O frasco era tão moderno que ganhou um lugar no Museu de Arte Moderna de Nova York, encantando o próprio pai da modernidade, Andy Warhol, que o imortalizou em uma série de telas, ao lado dos seus amados ícones, os Astros do século XX.

O No 5 conseguiu sucesso mundial imediato, parcialmente em razão da sofisticada estratégia de marketing adotada por Mademoiselle Chanel, com sua intuição e visão sempre tão à frente de seu tempo.

Inicialmente, o No 5 não foi vendido, mas doado quase como um prêmio aos clientes fiéis da Maison e aos amigos íntimos de Coco. Dessa forma, o perfume imediatamente se tornou um item de desejo da alta sociedade parisiense, um artigo sofisticado que uma mulher de classe não poderia deixar de ter. Apesar do preço bastante alto já na década de 1920, foram vendidos mais frascos dele que das outras fragrâncias, quase um por minute, um recorde que é mantido até hoje. Talvez para incentivar esse consumo tão excepcional, a própria Coco convidava mulheres a se “entregarem”. “As pessoas me dizem que teno um cheiro ótimo: eu uso perfume!”, ela admitiu, criticando seus compatriotas. “Os franceses colocam uma gota atrás de cada orelha. Um pequeno frasco dura seis meses. E eles chamam isso de estar perfumado!”. O sucesso não dimuiu nem mesmo no pós-guerra, quando, apesar de a Maison Chanel ter sido fechada, o No 5 continuava a vender em quantidades incríveis, até mesmo para os soldados Americanos, que queriam ao menos um frasco para levar para as suas namoradas.

E foi justamente nos Estados Unidos que o No 5 encontrou sua fã mais famosa e perfeita, a própria definição de feminilidade, tão frágil e tão atrevida: apenas Marilyn Monroe poderia condensar o fascínio dessa fragrância tão terrivelmente complexa. Quando, em 1954, um jornalista perguntou a Monroe o que ela usava para dormir, ela respondeu em um tom entre a serenidade e a ironia: “apenas cinco gotas de Chanel”.

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Foi o suficiente para incitar os mais alusivos pensamentos e transformar o perfume em um mito. Mas muitas outras atrizes atuaram como porta-voz publicitário das campanhas no Chanel No 5. Candice Bergen, Ali MacGraw, Lauren Hutton, Catherine Deneuve, Carole Bouquet, Nicole Kidman e Audrey Tautou: estrelas com uma beleza sofisticada, mulheres de calibre evidente e forte personalidade contestadora, as únicas que poderiam representar o espírito de um perfume tão importante e exigente.

Essa é a história do Chanel No 5! Incrível, não é mesmo?

 

Fonte: Livro Questão de Estilo

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